Botei meu vice pra correr

9 de fevereiro – Vai começar o Carnaval. Oh, quanta saudade dos tempos de Pires do Rio. Época em que eu tinha cabelo e pique para pular as quatro noites, sem gastar quase nada. Juntava os confetes caídos, pegava as serpentinas usadas e enrolava de novo. Era uma beleza! Na fantasia, também usava a criatividade ao invés de dinheiro. No dia em que conheci Mercedes, minha esposa, eu havia encontrado uma garrafinha de água. Tirei o rótulo, colei na minha camisa e segurei um cartaz escrito: “Nunca digas: ‘dessa água não bebereis’”. E não é que deu certo? Hehehehe...

 

10 de fevereiro – Rapaz, Jadeuzinho fez uma brincadeira sem graça. Espirrou uma daquelas espuminhas, direto no meu ouvido. Minha audição já não tá lá essas coisas, por causa da idade, e o menino faz isso? Passei-lhe um pito, mas não adiantou muito. Cinco minutos depois, o encapetado carcou aquela gosma branca na minha careca. Fiquei parecendo o Cid Moreira.

 

11 de fevereiro – Cherry quis pular Carnaval na matinê do clube. Topei, para fazer um agrado. Afinal, é só dar uma carteirada na portaria que eu não preciso pagar pelo ingresso, cê tá entendendo? O poder tem suas vantagens. A festa tava divertida, mas a coisa ficou braba quando tocou a marchinha do “Me dá um dinheiro aí”. Aquilo me deu um siricutico, uma alergia danada. Empipocou tudo! O Bube Esponja também passou mal. O salão começou a cantar “As águas vão rolar” e o homem ficou doido. “Mais chuva? Desse jeito as estradas num guenta”, protestava, enquanto tentava desligar as caixas de som. Rapaz, não temos mais idade para isso...

 

12 de fevereiro – Desta vez, não teve jeito. Tive de dar ponto facultativo pros funcionários. Vou confessar: doeu. Fiquei com um mau humor terrível, só de pensar em todo mundo descansando, em Peruíbe e Ilha Comprida. E só agora vi o desfile daquela escola de samba Unidos do Tuiuiú, Jabuti, ou coisa que valha. Tudo comunista! Os caras botaram um “Vampirão Neoliberalista” que é a cara do presidente Treme. Fiquei aliviado por não ter esse tipo de coisa em minha cidade. Imagina se a moda pega?  E por que tudo aquilo de carteira de trabalho? Deu até dor de cabeça. Tentei dormir e sonhei que tava pagando FGTS, férias remuneradas e 13º salário. É por isso que o Brasil não vai pra frente!

 

13 de fevereiro – Essa é boa: tem comerciante reclamando da programação do nosso Carnaval. Escuta aqui: eles sabem quanto custa para fazer uma festa dessas? E se deem por satisfeitos, porque só tá tendo os bloquinhos e shows graças ao Coiso da Cultura. Por mim, era só uma caixa de som tocando aquele Cd pirata, Axé Bahia 98, que Jadeuzinho comprou na viagem a Porto Seguro.

 

14 de fevereiro – Jadeuzinho espirrar espuma no meu ouvido, eu até entendo. Afinal, é jovem, molecote. Agora, o Vice Meninão me dar um susto com aquelas buzinas em spray, logo quando eu entro no gabinete? Não vou admitir! Já basta a amargura de o povo ter trabalhado só meio período. Botei o zoiudo para correr, mesmo!

 

15 de fevereiro – Expediente normal, todo mundo ainda com cara de ressaca e desânimo. Menos eu, lógico. Pra mim, não tem folia melhor do que ver o povo ralar sem dó e ganhando pouco. Ala-la-ô!!

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