"Minha cidade tá um lixo!"

5 de janeiro – Ano novo vida nova e o Jadeu também evoluiu. Aposentei o bloquinho e a caneta e fui convencido a escrever meu dia-a-dia na plataforma online. Mais rápido, moderno e, também, econômico. Não gasta caneta, não gasta folha. Uma beleza só! Meu filho disse que eu ainda consigo compartilhar esse meu diário no fecebúquis, o que parece ser uma coisa boa.

6 de janeiro – Rapaz, quanto lixo espalhado na cidade! Liguei pro Bube Esponja e exigi uma explicação. Parece que os trabalhadores da coleta se rebelaram, estão revoltados com a Prefeitura e, por isso, não fazem o trabalho direito. Escuta aqui: esse pessoal quer mais o quê? Eu já dou emprego, pão e água. Não tá bom? Daqui a pouco vão exigir ganhar adicional por jornada extraordinária, insalubridade, férias remunerada. Olha, essa herança comunista da CLT acabou com o Brasil! Ela e a tal Princesa Isabel. Eu sempre digo que essa mulher tem uma dívida histórica com aqueles que geram empregos nesta nação.

7 de janeiro – Eu realmente me rendi à tecnologia. Depois de transformar meu diário num blog virtual, comprei um aparelho “Gato-Net” para assistir TV a cabo sem pagar nada. Passei o domingo todo no sofá.

 

"O Picolé de Chuchu quer que eu morra? Só pode!"

 

8 de janeiro – Tivemos uma reunião de manhã. Eu, Mercedes e Bube Esponja. Falamos sobre a ameaça comunista na Garagem Municipal e a crise do lixo. O Trump sem peruca disse que a situação tava brava e que teríamos de ceder. Cherry ficou possessa! Subiu na mesa, segurou aquele alemãozão pelo pescoço e sibilou “Nunca!”. Olha, o homem ficou roxo, azul, quase morreu ali, na minha frente. Depois de afrouxar a pressão na garganta do Trump, Mercedes sentou-se calmamente na mesa e pediu para chamar o Laranja Lima no gabinete. “Vamos abrir uma sindicância contra eles”, anunciou. Eu só concordei com a cabeça, antes que sobrasse para mim. Rapaz, Winston Chuchis já dizia: “Tem duas coisas que ninguém consegue segurar – diarreia e mulher brava”. Pior que a Jaca tá indo pro mesmo caminho. Coitado de Jadeuzinho...

9 de janeiro – Fui tomar a tal vacina contra a febre amarela e tinha acabado. Vê se pode uma coisa dessas? Chamei Betão de Pilar do SUS e perguntei o que tava acontecendo. “O governador reduziu o número de doses, Jadeu. Não tem para todo mundo”, explicou ele. Negócio é o seguinte: esse Picolé de Chuchu tá acabando com a minha vida, cê tá entendendo? Não fez a obra da Bunchiro, nem o prédio da escola e nem o esgoto da Vila. Agora quer o quê, que eu morra de febre amarela? Só pode!

 

"Tem duas coisas que ninguém segura: diarréia e mulher brava"

 

10 de janeiro – Todo começo de ano eu fico nervoso. Parece que os funcionários ficam numa lenga-lenga, num ritmo de férias. Pedi um documento pro Mar Morto e ele tava demorando pra entregar. Fui cobrar e o encontrei de fone de ouvidos, tocando uma guitarrinha imaginária. Rapaz, é muito abuso! Botei ele numa força tarefa para pegar o lixo que os coletores tão deixando pra trás. E, se reclamar, não deixo fazer o show de rock, em maio, com aqueles cabeludos esquisitos que ele costuma trazer.

11 de janeiro – Finalmente consegui tomar a tal vacina contra a febre amarela. Madruguei na fila, mas deu certo. A mocinha do Ambulatório perguntou se eu havia sido imunizado, antes. Confesso que eu ri. Negócio é o seguinte: no meu tempo, em Pires do Rio, nem existiam essas coisas. O povo morria era de sarampo, tifo, caxumba, rubéola, bexiga e peste bubônica. Mais tarde, fui para São Paulo com o Bube Esponja. Como Mercedes não estava conosco, passei para ele um bilhete, sem assinatura e em código, que dizia: “Se você topar, a gente negocia com os coletores”. Ele devolveu e murmurou: “Vou pensar”. Comi o bilhete, para não deixar vestígios. Até que foi bom. Deu para tapear o estômago e economizei no almoço.

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