Preço ruim ainda frustra a supersafra de morango em Piedade

As temidas geadas ainda não aconteceram, pragas e doenças deram trégua e até o clima está colaborando para os lavradores de Piedade colherem a safra recorde de morango prevista para 2017. Apesar disso, os produtores do município ainda não têm motivos para comemorar. O problema é que os mesmos bons ventos que sopram por aqui chegam às regiões concorrentes. Resumindo: sobra fruta no país e os preços vão despencando.
 
No mês de junho, Roberto Noryiuki Hamaguchi, o Nori, comerciante de mudas e um dos maiores produtores locais, acreditava que o morango tinha boas chances de salvar o bolso dos lavradores em um ano recheado de prejuízos para quem planta legumes e verduras. Na ocasião, a expectativa era de que o município produzisse 1 mil toneladas mensais, em média, durante todo o segundo semestre e que o quilo da fruta se mantivesse, no mínimo, entre R$ 5 e R$ 6. A Primeira parte da aposta se concretizou plenamente, porém a remuneração não passou da metade do valor almejado.
 
A boa notícia é que, na maior parte das 150 propriedades piedadenses que cultivam morango a safra pode prosseguir até as festas de fim de ano. Ou seja, há grandes chances de as próximas 5 mil toneladas alcançarem cotações superiores às atuais.
 
Queda acentuada 
 
De acordo com a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), até o momento, os produtores de morango de Piedade estão apenas trocando dinheiro. Com custo de produção estimado entre R$ 2,50 e R$ 3,00 o quilo, já há quem esteja levando prejuízo. Na Ceagesp de Sorocaba, onde a fruta vem alcançando o valor mais baixo do mercado atacadista em todo o Brasil, a cumbuca é comercializada a R$ 2,75 desde o início de julho. 
 
Nos demais entrepostos onde o produto piedadense é negociado as cotações reagiram nos últimos dias. A questão é que a produção de outras regiões, especialmente Sul de Minas Gerais, tem melhor qualidade nesta época e acaba sendo preferida. Na capital paulista, por exemplo, a caixa com quatro cumbucas – aproximadamente 1,2 quilo – passou de R$ 8,00 no dia 4 de julho, para R$ 11,57 em 2 de agosto.  
 
Já na unidade do Ceasa de Campinas, o valor médio se manteve estável durante todo o mês passado, com o quilo sendo vendido entre R$ 10,00 e R$ 12,00. Na média, o produtor conseguiu R$ 10,80 pelo morango.
 
Ainda segundo os estudos da Conab, o morango foi a fruta que sofreu a maior desvalorização em 2017, independentemente do local. No Ceasa do Ceará, a redução bateu recorde em junho, com diferença de 31% na comparação com maio. Caiu de R$ 29,00 o quilo para R$ 20,00. O economista Odálio Girão, especialista em frutas, explica que a desvalorização tem relação com a grande safra colhida em Minas Gerais e nos estados do Espírito Santo e São Paulo. 
 
Os preços mais elevados alcançados pelo morango foram registrados nos entrepostos no Nordeste, por conta da baixa produção regional. Em Natal (RN), o quilo da fruta no atacado gira em torno de R$ 30,00 desde o início do segundo semestre. “Pena que o custo do transporte e as perdas registradas no caminho deixam a venda do nosso produto naquela região inviável”, lamenta o agricultor piedadense Renato Silva, do bairro Douradinho. Ele lembra que os 3 mil quilômetros de distância e os dois dias de viagem não permitem aproveitar um lucro tão “fantástico”. 
 
Após a euforia inicial, alguns produtores de Piedade já temem a repetição da situação registrada dois anos atrás, quando o morango mineiro “inundou” São Paulo. “Em 2015, a caixeta da fruta não superou a média de R$ 3 a R$ 6, fazendo a maioria ter de pagar para trabalhar”, comenta Nori.
 
Expectativa positiva 
 
Apesar da frustração acumulada em julho, ainda há quem aposte na recuperação dos preços. Luiz Silva, do bairro Ribeirão Grande, explica que os morangos que alcançaram preços ruins são os mais precoces, que foram para os canteiros entre os meses de março e abril. Esse grupo é estimado em 2 milhões de mudas e formado especialmente pelas variedades nacionais Camarosa, Oso Grande e Camino Real. 
 
A esperança de lucro está na safra da segunda etapa do plantio, ocorrida entre os dias 15 e 20 de maio. São pouco mais de 4 milhões de mudas importadas da variedade Camino Real Chilena, com início de colheita previsto para meados de agosto. “A partir de setembro, a produção das outras regiões diminuem e nós devemos começar a ter lucro”, torce Nori.

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