Vereadores falam em Deus para defender IPTU na zona rural

Zé Anézio diz que foi colocado na Câmara por vontade de Deus

Vereadores que votaram a favor da expansão do perímetro urbano fizeram uso da tribuna, na última segunda-feira (27), para justificar suas posições. A medida gerou intenso descontentamento entre a população por, entre outras coisas, levar a cobrança de IPTU (Imposto Predial Territorial Urbano) a sete bairros do município. Alex Silva (PTB), Daniel Dias (PSB), Marly Godinho (PSB), Professor Samuel (PSD), Zé Anézio (PP) e Waguinho (PSDB) deram suas explicações. Alguns deles não hesitaram em evocar o nome de Deus e parábolas religiosas, no intuito de se defender da acusação de que teriam trabalhado contra a população rural.

“Quem me colocou nesta cadeira de vereador foi Deus e eu jamais aprovaria uma proposta que fosse prejudicar meus irmãos da zona rural”, discursou Zé Anézio. “Eu tive de sair pelos bairros, para conversar com o povo. Fui muito bem recebido, pois a mentira é algo que não dura muito tempo”, vociferou. Segundo ele, as informações sobre o projeto chegaram “distorcidas” à população. Ainda na concepção de Anézio, apesar de a expansão urbana impactar na cobrança de IPTU, não se pode creditar a tributação ao aval da Câmara. “Foi algo que aprovamos para que o poder público possa buscar melhorias e alternativas. E eu vou cobrar, sim, essas benfeitorias”, avisou.

 

“Quem me colocou nesta cadeira de vereador foi Deus", Zé Anézio.

 

Mais contundente em sua fala, mas sem deixar de lado o argumento bíblico, Dr. Daniel mencionou supostos “fariseus” que tentariam manipular o povo com “meias verdades veiculadas na Imprensa e nas redes sociais”. Sem citar nomes, ele insinuou que os colegas que votaram contra o projeto – Adélcio de Jesus (PSB) e Maurinho Machado (PT) – estariam tentando “usar a população como massa de manobra, para colocá-la contra os vereadores”.

“Como é que pode alguém assinar favoravelmente à proposta, na comissão que preside e, depois, votar contra?”, indagou, em ataque direto a Maurinho, presidente da Comissão de Finanças e Orçamento.

 

"Não podemos ser fariseus e usar a população como massa de manobra", Dr. Daniel

 

Hostilização – Ainda em seu discurso, Dr. Daniel mencionou o impacto da notícia na sociedade. Nas ruas e redes sociais, muitos munícipes contestaram a decisão da Câmara e fizeram ataques diretos aos parlamentares favoráveis à expansão do perímetro urbano. Ele destacou o suposto risco de represálias e, até mesmo, atitudes mais hostis por parte de cidadãos revoltados. “Todos nós moramos em Piedade e temos família”, desabafou. “Andamos pela cidade e há o perigo de ocorrer algum ato de violência, por conta de um melhor entendimento sobre o projeto”.

A respeito desse assunto, o líder governista, Waguinho, afirmou que, desde a aprovação da cobrança de IPTU nos bairros, seus dias têm sido conturbados. “As pessoas vêm cobrar explicação. Eu moro em Piedade, dependo dos agricultores”, completou o parlamentar, que trabalha em uma empresa de implementos para lavoura. “Como poderia ir contra quem me ajuda?”, justificou. Ele também fez um apelo para que os munícipes confiassem em seu julgamento. “Não fui o vereador mais bem votado de meu partido à toa”, gabou-se, deixando de lado a modéstia.

 

"Desde que esse projeto foi aprovado, meus dias têm sido conturbados", Waguinho, vereador

 

Sobre o fato de nenhum dos vereadores que aprovaram a iniciativa ter se manifestado, na sessão de 19 de fevereiro, Dr. Daniel alegou: “Votamos em silêncio porque a verdade não precisa de gritos e nem de aplausos”.  A frase de Daniel, porém, seria rebatida por Adélcio de Jesus, momentos depois. “A pessoa deve defender uma posição com números e argumentos. E não falando alto, aqui, nesta tribuna”, fuzilou.

 

Referências – O petista Maurinho Machado foi o principal alvo dos discursos pró-expansão urbana. Ainda que seu nome não tenha sido diretamente mencionado, vários colegas fizeram referência ao PT e utilizaram termos e expressões supostamente ligadas à esquerda – como “Venezuela” e “Marxismo” –, durante seus discursos. O representante do PTB, Alex Silva, foi um deles.

“Se, por acaso, entregamos algum cheque em branco, isso foi há 12 anos para um governo federal que enganou o povo e o deixou na miséria”, destacou Silva. Uma semana antes, Machado tinha feito a alegação de que aprovar o projeto do Executivo era “entregar um cheque em branco”.

 

"Algumas pessoas fazem críticas em rede social, mas não vão cobrar a Prefeitura", Alex Silva

 

“Votei favorável à expansão, pelo direito do povo”, continuou Alex. “Eu não tenho parceria com o prefeito, nem cargos na prefeitura. Meu único compromisso é com o município”, alegou. A bronca do vereador se estendeu, até mesmo, aos munícipes descontentes com a iniciativa. Segundo ele, muitos cidadãos se limitam a fazer críticas nas redes sociais, contudo, não cobram a Prefeitura.  

Ainda nas referências ao PT, Professor Samuel foi no embalo do colega. “Aqui não se trabalha contra a população, ao contrário daqueles que usaram as pessoas, manipularam panelaços e deixaram o País quebrado, às portas de se tornar uma Venezuela”, alfinetou.

Em sua linha argumentativa, Samuel também bateu na tecla de que o projeto passou por análise técnica aprofundada e, também, foi submetida a discussões. De acordo com o parlamentar, o documento passou pelo Jurídico e pelas áreas técnicas da Prefeitura. Em seguida, foram realizadas reuniões, audiência pública e debate nos bairros. “Algumas localidades, inclusive, se sentiram prejudicadas por não entrar na expansão”, alegou. Também de acordo com Samuel, a Câmara estaria disposta a sentar e conversar com o Executivo, caso haja necessidade de mudar e melhorar a proposta.

 

"Aqui não se trabalha contra a população", Professor Samuel

 

Missão – Marly Godinho, cujo bairro – Ortizes – foi impactado pela iniciativa, defendeu que jamais votaria em desfavor da população ou para prejudicar os munícipes. Segundo ela, é preciso acreditar que a medida terá êxito e, por meio da expansão, melhorias serão levadas às localidades que passarão a pagar o IPTU.

“Não faço oposição e nem situação, logo, cobrarei benefícios a essas localidades”, prometeu. “Não se trata de carreira política, estou aqui, hoje, por uma missão”, continuou. “Tinha plena consciência do que seria votado e, se me calei na semana passada, é porque uma proposta deve ser discutida antes de passar pelo plenário”.

 

"O povo deveria se interessar mais por política e não vir aqui, apenas, por questões de interesse próprio", Marly Godinho

 

Ao final do discurso, Marly mandou recado aos populares que estiveram na Câmara, na sessão em que se aprovou a expansão urbana. “Como seria bom se, toda segunda-feira, tivéssemos casa cheia. Nós, políticos erraremos muito menos quando a população se interessar mais pelas discussões e não vir até aqui, somente, para cobrar questões de interesse próprio”.

“Um dia” – Presidente do Legislativo, o vereador Camarão Prestes (PSD) não votou no projeto. Porém, ele também foi à tribuna para falar da polêmica. Segundo o parlamentar, divergências e debates são normais em uma Câmara.

Em defesa da expansão, Prestes definiu a situação de Piedade como “terrível” devido à proliferação de loteamentos clandestinos que, por conta da situação de ilegalidade, não podem receber alguns investimentos. De acordo com ele, a regularização deverá sanar essa questão. O prazo estipulado por Camarão, todavia, foi incerto. “Agora não vai ter melhoria, mas um dia ela chegará”, desconversou.

Camarão também soltou uma informação controversa, na tribuna. Segundo o parlamentar, o ex-prefeito petista Geremias Ribeiro já queria expandir o perímetro urbano, entre 2009 e 2012.

 

"Cada um tem sua posição. Esse é o princípio da democracia", Adélcio de Jesus

 

Contraponto – Após a saraivada de justificativas, os parlamentares que foram contrários ao projeto subiram à tribuna para falar. Adélcio de Jesus afirmou que não foi influenciado por inclinações pessoais e que, apesar de a posição desfavorável, a proposta tinha respaldo jurídico. “Mas, eu pergunto: no projeto, onde estão as creches dos bairros afetados? As UBS (Unidades Básicas de Saúde)?”, questionou. Ele mencionou, ainda, a falta de estudos sobre o impacto ambiental decorrente da ampliação da zona urbana.

“Não me arrependo de meu voto e não quero que ninguém seja ameaçado. Mas, cada um tem sua posição. Esse é o princípio e o fim da democracia”, declamou. “É admirável, aliás, ver que apenas dois vereadores foram contrários à proposta e houve toda essa repercussão”, ironizou Adélcio.

Durante sua fala, o peessebista cobrou explicações de Zé Anézio, a respeito da afirmação de que os fatos noticiados pela Imprensa não seriam verdadeiros. O colega, todavia, desconversou. “Eu critiquei a forma como a informação chegou aos munícipes. Não citei Imprensa”, alegou, para ser rebatido por Adélcio. “Não há outra forma de a população saber o que se passa aqui dentro, senão pelos jornais”, disparou.

Maurinho Machado, por sua vez, afirmou que continuava contrário à expansão urbana e que toda a discussão vista não tinha razão de ser. “O momento de colocar essa divergência de opiniões em pauta seria na sessão que tratou da aprovação do projeto”, alfinetou.  Sobre o porquê de ter votado a favor da medida, na comissão de Finanças e Orçamento, ele repetiu discurso feito em 19 de fevereiro. “Deixei claro e justifiquei meu voto: no aspecto jurídico, projeto é legal”. 

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